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Uma tela de cinco polegadas

Ainda não sei se o avanço da tecnologia de comunicação aproxima as pessoas. Temos uma ilusão de que tudo está ao nosso alcance pela tela de um computador ou de um smartphone. Whatsapp, instagram, facebook, tudo feito para aproximar pessoas distantes. Com todas essas ferramentas sociais, acabo sabendo de tudo que acontece no meu círculo de amigos, mesmo aqueles que se afastaram ou que foram embora. Enquanto eles continuarem postando, ali estou eu, curtindo, comentando, compartilhando... interagindo com distantes instantaneamente. Realmente é uma evolução.

Me lembro das cartas que trocava com minha madrinha, que foi morar em outro estado. Eu tinha que escrever tudo que estava acontecendo comigo em uma folha, colocá-la em um envelope e requisitar o serviço dos correios para que essa carta chegasse às mãos da minha madrinha. Era bem trabalhoso e lento, a resposta dela chegava semanas depois. A tentativa de manter contato era difícil. No fim, acabamos perdendo o contato.


Meus contatos se resumiam a minha rua e meus contatos distantes se resumiam ao meu bairro. Ia na casa dos meus amigos pra jogar video-game. Batia na porta de cada casa para convidar pra um futebol. O mundo era bem menor, mas era mais próximo.
Com o tempo acabamos perdendo esse contato físico, esse olho no olho. Um whats já nos poupa o trabalho de ir na casa da pessoa ver se ela se encontra lá. Uma curtida e um comentário cria uma ilusão de que estamos participando daquele momento. E como curtimos. E como comentamos.
Acabamos gostando mais do mundo de curtidas e comentários. Hoje é impossível dar um rolê com os amigos sem o smartphone. E mais impossível ainda manter uma conversa sem dar aquela checada nas notificações. Difícil olhar no olho. Todos conversando de cabeça baixa. O assunto da mesa é o que está acontecendo em cada tela de cinco polegadas. Ninguém percebe o que está acontecendo ao redor, e nem o que está acontecendo com eles mesmos.

Nossos relacionamentos se resumem a uma tela de cinco polegadas. Nossas conversas são digitadas e nossas provas e juras de amor são emojis. Quando conhecemos alguém interessante passamos dias trocando digitações, e quando nos encontramos:

- Nossa, você é muito diferente da foto!
- Pensei que você era mais alto.

Quando não nos restringimos aos nossos pensamentos:

- Meu Deus, ela não tagarelava tanto no whats!


Não conhecemos ninguém. Achamos que conhecemos. Não vivemos nenhum momento até conseguir tirar aquela foto que vai render x curtidas. E depois da foto vem o snap, depois o twitter, depois vou conversar pelo whats com pessoas que não estão ali e depois... o momento passou.

A internet veio para me mostrar que o mundo era muito maior que a minha rua, mas ao mesmo tempo, comprimiu ele a um tamanho menor: uma tela de cinco polegadas.

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