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Fanático

Quando somos fanáticos por algo, geralmente não conseguimos pensar fora da caixa do fanatismo. Qualquer coisa que esteja em oposição é errado e muitas vezes deve ser combatido. Na verdade parece que sempre é combatido. Vejamos alguém fanático por um clube de futebol ou por um gênero musical. Nada que venha do outro lado é bom ou nos faz refletir um pouco. O outro lado é um inimigo mortal. Acho que essa foi uma boa definição de fanatismo.
Agora vamos ao tempo que eu era fanático. Um fanático religioso. O pior tipo de fanático. Passei muito tempo achando que o inimigo estava nos outros por não serem tão religiosos como eu. Como podia alguém gostar de festas e bebidas quando se tinha uma igreja tão legal e atraente perto de casa? Como pode alguém se “entregar ao pecado” quando Deus nos oferece uma vida felicíssima de “não faça isso e não faça aquilo”? Eu não conseguia compreender o que fazia as pessoas não viverem a vida que eu vivia. E na maioria das vezes condenava elas por não viverem religiosamente como eu, santo e separado para a obra do Senhor.

Hoje eu fui a uma festa onde um amigo meu ia cantar. Me senti um pouco deslocado por ser uma festa de rap, mas mesmo assim foi legal. Bebi o suficiente pra ficar ligeiramente tonto (2 latas, mais ou menos), falei bobagem, filmei, fotografei, ri bastante. Cheguei em casa satisfeito por ter passado um tempo com meus amigos, feliz por ter sido lembrado e sem culpa religiosa de nada. Ali eu entendi porque as pessoas vão às festas. É um ambiente legal, com pessoas legais e muita risada. Ali nos esquecemos da semana cansativa que passamos, esquecemos dos problemas e depois de algumas cervejas esquecemos até quem nós somos.
Agora começo meus questionamentos:
Isso tudo é pecado? Achar uma fuga dos nossos problemas por algumas horas seria pecado? Beber, rir e se divertir seria pecado? Sair com os amigos que você ama e voltar feliz pelo tempo gasto juntos seria pecado? No fim, o que é o pecado mesmo?
Por que que, como cristãos, condenamos tanto o pecado? Por que fazemos dele nosso inimigo mortal e trocamos tiros com ele, não se importando se alguém sair ferido desse tiroteio?

Não estou defendendo uma libertinagem cristã, onde tudo é permitido (apesar do apóstolo Paulo ter dito que tudo é lícito). Muitas vezes parece que é ofensa ao cristão questionar as coisas ou pensar sobre elas.
Estou defendendo uma postura menos fanática e mais compreensiva com as pessoas que escolheram não seguir nossa religião.
Claro que o mundo não é um mar de rosas e nem é a imaginação de John Lennon, mas eu penso que nossa atitude de cristão é tentar fazer desse mundo o melhor possível. E não é convertendo todo mundo. Isso é o que ferra a cabeça do fanático. Pra ele, o mundo melhor é o mundo onde todos seguem seu fanatismo e seu trabalho é converter pessoas.
Será que nosso trabalho é converter pessoas?
Será que não aprendemos com a idade média que uma nação cristã não é a solução dos problemas do mundo?

A gente erra bastante quando nos achamos donos da verdade. Falta empatia em nós. Falta reconhecer a legitimidade da “fuga” que as pessoas escolhem. Muitas vezes fazemos Deus de “fuga” para os nossos problemas e condenamos as pessoas que fazem as festas e as drogas como fuga. Será que há alguma diferença entre essas coisas quando são tratadas como fuga?
Deus como fuga dos nossos problemas não é Deus. E trocar ele por festas e drogas não faz diferença nenhuma.
Hoje eu entendo essa galera que adora uma baladinha. Entendo essa fuga e até acho válido em alguns casos. A vida é uma merda mesmo e qualquer chance de fugir dela é válida.

Sabe por que os cristãos tem tanto medo de festas?
Porque lá existe mais amigos e mais alegria do que nas igrejas.
A igreja pode rebater meus argumento dizendo que lá não há a alegria verdadeira. Em partes até concordo, mas isso não se trata de falso ou verdadeiro. Se trata apenas da fuga da realidade.
A realidade é triste. Passamos a semana inteira trabalhando e estudando. Não temos tempo pra relacionamentos, nem pra diversão. No final de semana queremos fugir dessa vida. E queremos um resultado imediato.

Entendo as baladas. Entendo os baladeiros.
Depois que acabar a balada, cola lá na igreja. Tem um pessoal bacana te esperando pra trocar uma ideia, rir e resolver os problemas uns dos outros.


Pelo menos deveria ter.

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